terça-feira, 7 de julho de 2015

Pais

   Desde que nos entendemos por gente somos parte de uma família, esta que por um bom tempo, ou melhor, até não conseguirem mais evitar, nos priva de saber os podres e as desgraças da vida a dois. Porém, como eu mesma disse, nossos pais não conseguem por mais que dezessete ou dezoito anos. As coisas aparecem, nos afetam. Só não vê quem não quer e está muito imune da sua família para se afetar com isso. Fato é que sempre tem alguma coisa na relação deles que não nos agrada. 
   
   No começo pode ser meio desagradável, desconfortável, mas logo pensamos que em pouco tempo a gente não vai mais estar ali mesmo, eu não vou mais ter que me incomodar. Se engana. Aquilo te consome, todos os finais de semana são uma prova de que aquilo não acabou, e você até insiste que é uma questão de tempo, quando não é. 

   Aí quando o assunto da mesa é "pais", você logo prepara aquele roteiro de 'as melhores coisas' e 'as menos piores', porque realmente nessas conversas parece que os pais de todo mundo são muito incríveis. Ou pior, quando a roda é de amigos de longa data onde você não pode de jeito nenhum desconstruir a ideia que eles tem dos seus pais, por toda aquela coisa de se sentir na obrigação quase que inconsciente de defendo-los. Afinal, ninguém vai conseguir entender as falhas deles e o porquê delas como você, não é?

   Mas será que você entende mesmo? É como se entendesse, mas na realidade esse sentimento não é de um entendimento profundo sobre os sentimentos daqueles que te colocaram nesse mundo, muito menos uma sensibilidade sua sobre todas aquelas decepções e defeitos que eles expressam no olhar, mas sim uma compreensão por você ter sentido sempre tudo aquilo que eles tentaram esconder. As brigas que você escutava da sua cama que aconteciam na sala, os gritos reprimidos em sussurros estressados, seus pais sem se falar direito dizendo que estava "tudo normal", sua mãe berrando com você porque você deixou cair uma gota de chocolate no sofá, sem saber que cinco minutos antes ela estava fula da vida ao telefone com o seu pai. 

   Tudo isso a gente sente, apesar de mentirmos pra nós mesmos, a gente sente junto, vive junto, sofre junto e, as vezes, até supera junto. Não da pra esconder, não da pra poupar, a gente esta sempre ali na vida deles e eles na nossa. Não podia ser diferente! Eles que nos fizeram e, de forma impecável ou lamentável, nós querendo ou não, eles que nos criaram. Essa é a base de referência que a gente tem pra nossa vida, pra nossas atitudes e principalmente pra nossa futura vida a dois. 

   Mas eles nunca vão suportar essa incompetência de não poder nos poupar, ou de não poder evitar nossos julgamentos. Por isso nós continuamos fingindo que acreditamos na pacificidade da relação deles (mesmo sabendo ser uma paz armada), as vezes explodindo e colocando umas verdades na mesa, mas na maioria das vezes respeitando o desejo deles de que nesse turbilhão de conquistas e frustrações que eles compartilham, nós ainda confiemos neles o papel de nosso porto seguro. 

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