O acaso sempre brinca com a gente quando menos esperamos. Pode reparar. Dessa vez fui eu a escolhida, numa noite de quinta-feira enquanto tragava minhas dores semanais. Olhei pra minha diagonal e um cara na mesa do lado fazia exatamente a mesma coisa, seja por dor ou felicidade, ele tragava a vida com ansiedade toda vez que os nossos olhares se cruzavam.
De prima não me senti completamente atraída, não achei ele o mais lindo dos homens, mas bonitinho, charmoso e com potencial confesso que sim. Meia dúzia de olhares tímidos foram o suficiente pra ele sair da mesa e confesso que pensei "bosta, não foi dessa vez". Tudo assim rápido, sem muita margem pra pensamento, fim. Fim? Imagine, se eu que estava atolada de trabalho pra fazer me senti intrigada com aquela troca de olhares, imagine ele que não estava fazendo porra nenhuma, e óbvio queria fazer a boa.
"Você joga sinuca?" "Sim, e você?" Não, imbecil. Ele perguntou porque estava fazendo uma enquete. Ok o começo não foi tão bom assim, eu por estar cansada da vida e da faculdade e dos amigos e da falta de grana me senti meio intimidada, ao mesmo tempo que tentada por aquele convite. Então começaram as conversas, e eu que não via muito futuro naquilo fui de forma despretenciosa sendo amaciada. Sim, o cara era bom. Ele viu que aquele convite que ele fez e todo o papo furado de "vamos nos conhecer" eram tentativas, quase que um desafio. Filho da puta.
Nessa de me desconcentrar no jogo de sinuca porque o jogo de sedução estava com certeza mil vezes mais interessante, me vi falando muito, falando o que eu penso de verdade, como nunca fiz com alguém que eu acabei de conhecer. Ou com qualquer pessoa, nem mesmo meus pais. Nada de muito comprometedor, mas eu me senti leve, falando sobre coisas leves. E ele, não sei se abriu-se ou se me enganou (risos), só sei que me contou coisas incríveis, compartilhou de ideias e opiniões, me ouviu e se abriu, conversou. Conversa, coisa esta que tem sido muito rara em qualquer ambiente, com qualquer pessoa. A gente conversou.
A noite, depois no café da manhã. Aquele olhar que buscava o meu, aquela mão gentil, aquele sorriso leve e sorrateiro. Aquele beijo e aquele abraço de tchau. Saí para a entrevista que eu tinha de fazer numa agência, logo depois fui pra aula, depois conversei com uma amiga, enfim cheguei na casa da minha avó pra passar a noite. Tudo foi passando. Menos ele.
As primeiras mensagens foram expressivas, eu me empolguei, ele se expôs, como todo começo de troca de mensagens; a gente nunca sabe exatamente como lidar. Mas eu sentia ele cada vez mais forte dentro de mim, como se eu alimentasse esse sentimento cada vez que eu lembrava de um detalhe, de uma gentileza. "Quando eu for pra São Paulo", disse. Não cheguei a me animar, mas a imaginar sim. Eu estava no auge da paixão, bêbada de tanto tomar doses de desejo por aquele homem. O sorriso de quem sonha acordada se tornava calafrio de quem esta com o corpo quente. E eu confesso que me permiti, odeio essa geração merda da pressa, eu queria curtir aquela sensação mesmo que fosse curtir uma fossa um pouco mais profunda depois.
As coisas foram esfriando. Caindo. Escapando. Morrendo. Hoje em dia ninguém tem saco pra se apaixonar, pra se ludibriar, pra sonhar, criar mundos e fundos mesmo que seja pra acabar sofrendo. Porque as pessoas estão muito apegadas ao futuro, ao que vai acontecer. Ninguém quer sentir saudades, sair da zona de conforto, quebrar barreiras tanto territoriais quanto sentimentais pra viver algo novo. O novo é desconhecido, pode te foder. Ninguém quer se foder. Não vou ser hipócrita e dizer que eu superei esses medos e por isso dou um voto de confiança no amor. Muito pelo contrário, sou a pessoa que mais tem passado tempo evitando esse tipo de coisa. Mas eu acho que esta mais que na hora de se permitir um pouco mais. De me permitir.
Mesmo que essa minha paixão tenha me deixado na merda, e ainda deixa, e apesar de eu me pegar pensando nisso, pensando nele, pensando no quanto ele me afetou em tão pouco tempo, não é esse cara que esta mexendo comigo, mas sim tudo o que eu construí em cima dessa situação, tudo que eu senti de novo, tudo que eu senti pela primeira vez, tudo o que eu quero sentir mais vezes. É uma bosta sentir um desejo maluco por uma pessoa e ela não estar ali? É, mas você aprende que da pra ir tomar um chopp com as amigas quando isso acontece. É horrível querer voltar no tempo? É, mas você se surpreende com as coisas que o futuro acaba trazendo, então sempre tem solução.
A paixão não é só lado ruim, ela não dura pra sempre, ela pode sim ser a porta pra uma fossinha amorosa, mas ela também pode ser a porta pro amor, não só esse amor de relacionamento que vocês ouvem falar, mas o amor por coisas pequenas, e por mais que falando isso eu não possa ser mais clichê, no fim a paixão é como uma droga (literalmente): depois de toda a good trip, de toda a sensação boa, daquela experiência de êxtase absoluto, quando passa o efeito vem a bad, uma sensação de impotência, mas que no fim passa e você não precisa depender daquela droga pra sempre.
Então, independente de pra quem eu esteja escrevendo isso, você aí que ta lendo (ou não quis chegar até o fim desse texto mela cueca), eu sei como é uma merda uma época em que ser romântico é ser trouxa e se apaixonar significa dar uns amassos na balada e depois nunca mais se ver na vida, mas não é o que acontece aí fora que realmente importa. Se você quer se apaixonar e quer que isso dure mais que dois dias úteis, se você quer namorar, se quer dar sempre pra mesma pessoa por mais que um mês, vá fundo. Nada te impede, não é isso que vai te matar nem te impedir de conhecer alguém novo. Se hoje em dia esta na moda a quebra de modinhas, não tenha medo de ser menos um nesse mainstream de gente anestesiada. Seja quente, ame, foda, se foda. It all shall be ok.

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